Pontos marcantes sobre "Filosofia da Caixa Preta"

O livro “Filosofia da Caixa Preta” de Vilém Flusser é uma crítica a forma como a fotografia passou a ser feita. Sua ideia principal é possibilitar o alcance da liberdade do homem pela criação de uma filosofia da fotografia. 

Para Flusser, imagens são representações do mundo externo e pretendem representar no plano o que há no mundo real. Por serem superfícies de duas dimensões, abstraem as outras duas dimensões: profundidade e tempo. Essa capacidade de abstração é chamada de imaginação, necessária para interpretação. As imagens têm o propósito de serem representações do mundo e não o mundo. Entretanto, o homem perde a capacidade imaginativa de decifrar as imagens e passa a viver em função de tais como se fossem o mundo. Chama-se de idolatria a inversão da função das imagens. Nasce a escrita, em um método chamado “rasgamento”, que seria o desfiar das imagens em linhas, de maneira a descrever ou decifrar as imagens, para superar a idolatria. A escrita representa as imagens que representam o mundo. Entretanto, com esse método, o homem se afasta mais da realidade. A escrita teria a capacidade de abstrair todas as dimensões, com a exceção da conceituação, que decifraria os códigos e se aproximaria mais do mundo real, mas isso não acontece. Surge então outro conceito, o da “testolatria, que sugere que o texto não representa o mundo, mas sim as imagens desfiadas. A imagem técnica emerge como uma forma de superar as dificuldades dos textos. 


São abordadas as imagens produzidas por aparelhos, as máquinas fotográficas. Imagens técnicas seriam produtos indiretos de textos e são comparadas com imagens “pré-históricas”, aquelas feitas com lápis e papel, por exemplo. A imagem técnica fala por si mesma, mas não deve substituir um raciocínio lógico baseado em fatos. O que caracteriza o aparelho fotográfico é o fato dele ser programado, e o trabalho do fotógrafo é, portanto, esgotar essas potencialidades. O aparelho é um produto que vai gerar novos produtos. É questionado quem domina quem: se o homem domina a máquina ou se a máquina é programada para dominar o homem. O baixo custo das máquinas levou à banalização do ato de fotografar. As pessoas não sabem como funciona a caixa preta e a veem como caixa mágica, um brinquedo. O autor também cita a manipulação da imagem, influenciada pelo fotógrafo, pela indústria fotográfica e pela imprensa e chega distorcida para o receptor. 


Flusser se atenta para o gesto de fotografar, a postura do fotógrafo como gesto de ataque, utilizando uma metáfora de caça. Aparelho e fotógrafo se confundem para formar unidade funcional inseparável, produzindo fotografias: boas imagens são de cunho informativo, profissionais e inéditas. “Fotografias são imagens técnicas que transcodificam conceitos em superfícies”, são mensagens que articulam a ambiguidade entre a intenção do aparelho e a intenção humana. A melhor fotografia seria a que a intenção humana prevalece, sendo ela um caminho para a liberdade. A fotografia pode ser multiplicada infinitas vezes e distribuída de diversas formas para diversas finalidades, como arte ou notícia. Ela não tem valor como objeto, mas possui valor informativo, e esse poder faz com que as pessoas possam se tornar alienadas, consumidas por um universo fotográfico sem criticar o valor e a intenção do fotógrafo. É um universo é vazio e absurdo, portanto, os fotógrafos devem tentar inserir intenções humanas e a filosofia deve desmascarar esse jogo. 


Por fim, Flusser enfatiza a urgência de uma filosofia da fotografia. Os pilares de tal filosofia são imagem, aparelho, programa e informação. É urgente pois trata da liberdade, sendo a única revolução possível para a liberdade do homem, visto que devemos ter controle e domínio do ato fotográfico, da criação e propagação de imagens. 

Comentários

Postagens mais visitadas