Entendimento sobre finalística, causalística e programática
A partir do texto "Nosso Programa" de Vilém Flusser e das dinâmicas corporais realizadas em aula, pudemos compreender os conceitos de finalística, causalística e programática.
No texto, Flusser introduz ideias sobre a imagem finalística, inicialmente. É a imagem predestinada que provém das tradições religiosas, na qual o ser humano está sujeito a um propósito que demanda meta. O problema dela é a liberdade humana e até que ponto o homem pode opor sua livre vontade contra o destino. A seguir, o autor descreve a imagem causalística, que surgiu a partir das ciências da natureza e implica que todo evento é efeito de determinadas causas e causa de determinados efeitos. Esta também apresenta o problema da liberdade, na medida em que apresenta dois extremos: o determinismo e o caos. Entretanto, pode haver uma ilusão de uma ação live, mesmo que seja "objetivamente" determinada, pois as causas são complexas e os efeitos são imprevisíveis. Ambas as imagens são consideradas extrapolações ingênuas da situação concreta, a chamada "programática". A ideologia programática considera o universo como sendo situação na qual determinadas virtualidades inerentes a ela ocorreram ao acaso, outras permanecem irrealizadas e outras se realizarão no futuro. Ela considera o homem uma das permutações possíveis da informação genética comum a todos os entes vivos, enxergando no comportamento humano manifestações casuais das virtualidades inerentes no homem e no seu ambiente. Todos os modelos são programas: todas as virtualidades, até as mais improváveis, se realizarão se o jogo for jogado por tempo longo o suficiente, como os sistemas planetários ou o cérebro humano, que é um desenvolvimento do programa contido na informação genética imprevisível na ameba. Flusser afirma que o conceito fundamental da visão programática é o acaso. O que parece ser propósito e significado, ou então causa e ordem, são acasos interpretados ingenuamente. O problema da liberdade nesse caso não existe, pois o comportamento da sociedade é interpretado como sendo programado sem causa ou finalidade, ou seja, a visão programática é a-política. O problema dela, no entanto, é não admitir outra visão simultânea, pois a linearidade causal e final são duas dimensões dela mesma e seu desafio é aprendermos a pensar a-politicamente para preservar a liberdade. É perceptível que cada vez o comportamento do indivíduo e da sociedade vai sendo programado por diferentes aparelhos e estes funcionam sempre mais independentemente dos motivos dos seus programadores. Eles não devem ser antropomorfizados ou objetificados, mas compreendidos em sua forma concreta, programada e absurda. Flusser conclui que apenas dessa forma a liberdade é concebida, depois de termos assumido a política e existência humana em geral como jogo absurdo, para sermos jogadores e não robôs, meras peças de jogo.
Para absorver melhor os três conceitos, realizamos três dinâmicas corporais no pátio da Escola de Arquitetura, com todos os alunos da sala. Primeiramente, todos fomos enfileirados e cada vez que escutássemos o som de uma palma, tínhamos que trocar de lugar com quem fosse mais alto ou mais baixo e estivesse diretamente do nosso lado. Isso ocorreu de forma que quem fosse mais baixo ficaria do lado esquerdo e quem fosse mais alto ficaria do lado direito, formando uma fila do menor para o maior. Se destacou a imagem finalística, pois tínhamos o objetivo de formar a fila. Depois, permanecendo nessa mesma fileira, cada um escolheu uma função, horizontal ou diagonal. A primeira pessoa da fila iniciou um movimento de toque, com o braço ou a perna, e o movimento da pessoa antes de você afetaria o seu movimento para tocar a próxima pessoa: quem possuía a função horizontal deveria repetir o movimento da última pessoa, enquanto que era diagonal deveria fazer um movimento diferente. Nessa dinâmica identificamos a imagem causalística como protagonista, visto que o movimento de uma pessoa (causa) afetou todos os outros (efeito). Na terceira e última atividade, a lógica da função horizontal e diagonal permaneceu, mas em vez de nos organizarmos em fila, todos ficamos espalhados pelo espaço. Quatro pessoas iniciaram o movimento e a partir do momento em que uma pessoa era tocada, ela andava no espaço, escolhia qualquer outra pessoa para tocar e algum outro lugar para parar, até ser tocada novamente. Nessa dinâmica a visão programática teve maior destaque devido a aleatoriedade dos movimentos, que não poderiam ser previstos, mesmo que também poderiam ser identificados elementos finalísticos e causais. Além disso, percebemos que fatores de fora influenciam os movimentos e escolhas de cada um, como uma árvore que gera sombra e atrai as pessoas para debaixo dela. Foram atividades muito interessantes que permitiram um entendimento mais concreto das ideias de Flusser, as quais havia interpretado inicialmente de maneira muito abstrata.


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